Review – Sepultura – Chaos A.D
Fonte: Wikipedia

Review – Sepultura – Chaos A.D

Chaos A.D é o melhor disco do Sepultura e tem motivos para isso.
Sim, os fãs de Sepultura normalmente se dividem em 2 grupos: de um lado os que acham que Arise e Beneath the Remains são as obras-primas da banda e de outro os que preferem a fusão com as raízes brasileiras do Roots e dos álbuns subsequentes.

E caso, eu quisesse acabar esse texto aqui, eu poderia dizer que é exatamente pelo fato de Chaos A.D estar exatamente no meio, e conseguir agradar aos dois grupos que é o melhor do disco do Sepultura, mas eu vou além e vou explanar meu ponto de vista.

Gravado em um estúdio isolado no País de Gales e com produção de Andy Wallace (que foi responsável pela mixagem do Arise) Chaos A.D é um disco experimental e diferente. Podemos dizer que o Sepultura fez algo até então inédito em sua carreira e não só olhou para frente, como passou a criar tendências ao invés de apenas segui-las. Não à toa, nomes como Joe Duplantier (Gojira) e Jim Root (Slipknot) já disseram que o Chaos A.D é um dos melhores discos de metal de todos os tempos, o creditaram como inspiração e também como um dos catalisadores do que viria a ser o “nu-metal“. O Korn nunca escondeu a importância do Sepultura e do Chaos A.D para criarem o seu som.

O disco que começou a ser escrito depois de uma longa turnê para a divulgação do trabalho anterior, Arise, fez o Sepultura “olhar para dentro” na questão temática e na questão sonora. As letras de Max Cavalera sofrem uma mudança e passam a olhar mais para o lado social, principalmente do Brasil, deixando a reflexão individual em segundo plano, o que ocorre de forma até natural após passarem tanto tempo longe de casa, o Sepultura pôde ter uma visão diferente do Brasil e resolve falar sobre isso liricamente e sonoramente. O Sepultura olha para o Brasil do inicio dos anos 90 e fala sobre temas que até hoje são modernos e relevantes: racismo, xenofobia e neocolonialismo e como esses movimentos tem como base forças policiais corruptas e politícos autoritários. Um artigo recente da revista VICE diz que o Chaos A.D é “o grito anticolonialismo que o thrash sempre precisou” e cita o álbum como um dos “mais importantes de todos os tempos”.

Isso fica claro já na faixa de abertura Refuse / Resist. A letra que começa com as frases “Chaos A.D / tanks on the streets / confronting police / bleeding the plebs” (Caos Ad / Tanques nas ruas / confrontando a policia / sangrando os plebeus, em tradução livre) foi inspirada em parte pelo massacre do Carandiru, ocorrido por volta de 1 ano antes da composição da música. A capa do single é uma foto de um estudante sul-coreano com um coquetel molotov na mão, indo de encontro a policia e o video oficial usa a imagem iconica do “tank man“, o homem que enfrentou os tanques durante os protestos na Praça Tiananmen na China em 1989. O que mostra o quão universal é a mensagem da música, permeada desde o inicio pela bateria tribal de Iggor Cavelera inspirado segundo entrevistas do próprio pelas batucadas nos estádios de futebol brasileiros e com um riff que estaria em casa em qualquer disco de death metal.

Se o video de Territory faz menção a guerra entre israelenses e palestinos, a letra da música pode se encaixar para descrever qualquer governo que use a xenofobia e o ódio para controlar a população. E o peso entra como um soco no estômago ao ouvir Max vociferar “Years of Fighting / teaching my son / to believe in that man / racist human being” (anos de luta, ensinando meu filho, a acreditar naquele homem, ser humano racista) sendo que normalmente nas versões ao vivo, ele canta “racist piece of shit“, o que eleva ainda mais a tensão e deixa explícita a porrada.

Slave New World é uma música reta, pesada e direta. E com um riff e temática que poderia estar no Arise ou no Roots, é uma das músicas que mostram, na minha opinião, a ponte entre o Sepultura “jovem” do Arise e o Sepultura “road dog” do Roots. O momento alto, liricamente é a frase: “You censor what we breath / prejudice with no belief” (Você censura o que respiramos, preconceito sem fé, em tradução livre).

Se o andamento fica mais devagar em Amen, a intenção é bem clara, afinal a letra “In the name of God not one more dead / Fire blasting cutting edge / Children burn in flames / in the name of God we’re going insane” (em nome de Deus, fogo cortando os céus, crianças morrendo queimadas / em nome de Deus, estamos ficando loucos). Vemos aqui um Sepultura maduro musicalmente usando até corais para passar uma mensagem clara e atemporal.

E chegamos na quinta faixa, que para mim, é um dos pontos principais do album e da virada do Sepultura. Kaiowas. Uma faixa instrumental, 100% acústicas, com Max e Andreas Kisser tocando violões e Iggor e Paulo Xisto Jr tocando percussão, uma música 100% brasileira, que presta tributo a uma tribo de um povo originário que entrou em conflito pela demarcação de terra diversas vezes. O que temos aqui, é a fusão entre uma banda com um som violento e a delicadeza do violão brasileiro, algo que até então ninguém tinha feito. A música possui a afinação mais baixa do disco o que traz um peso incrivel para uma música acústica, foi a primeira incursão do Sepultura na música nativa brasileira que seria o carro chefe do disco seguinte, Roots. Essa música é muito mais importante para a história do metal do que muita gente dá crédito.

Sobre Propaganda, vou ser curto, como os menos de 4 minutos da música sugerem, a letra está cade vez mais atual, com o advento da Inteligência Artificial, o refrão que diz: “Don’t Believe what you see / Don’t Believe what you read” (Não acredite no que você vê / Não acredite no que você lê) a música prega que demos entender que todos tem motivos e que estamos sendo manipulados.

E na sequência temos uma música escrita para o Sepultura por Jello Biafra (Dead Kennedys), Biotech is Godzilla fala sobre os perigos da biotecnologia e das armas biológicas, mas faz questão de dizer que a tecnologia em si não é o problema, e sim as pessoas que a utilizam ou “nas mãos erradas” como a letra se refere.

Nomad tem um riff pulsante e fala sobre as pessoas que foram expulsas de suas terras por invasores mais “civilizados” que não entenderam e/ou destruiram a cultura local. Escrita por Kisser, o solo dá uma dica do significado da música, ao incorporar sonorides que remetem a músicas de origem arábica.

We who are not as others é direta, e ao misturar violões e batidas tribais com feedbacks e microfonia deixa claro que nós não somos como os outros. Essas pequenas incursões em experimentalismo que marcam o disco como um todo.

Se eu disse que Refuse / Resist foi parcialmente inspirada pelo massacre do Carandiru, Manifest deixa claro a inspiração, com uma gravação de rádio citando diretamente o massacre e o Carandiru pelo nome.
A letra descreve o massacre. E em um dos momentos mais tensos do disco, o baixo de Paulo Xisto aparece como a força motriz de uma britadeira.

E para fechar o disco, temos Clenched Fist, que fala sobre como devemos resistir e sobre como apesar dos pesares, a dor e a luta fazem parte da existência e que devemos manter os punhos cerrados para lutar contra as desigualdades.

A banda ainda gravou 3 covers, The Hunt, cover do New Model Army, que aparece na edição normal do disco enre Manifest e Clenched Fist. Polícia, cover dos Titâs, que aparece apenas na edição brasileira do disco, como faixa escondida após Clenched Fist. E também Crucificados pelo sistema, clássico do Ratos de Porão, que aparece na edição expandida de Chaos A.D lançada em 2017.

A escolha desses covers, indo de artistas que não tem relação direta com o metal como o New Model Army e o Titãs além da mensagem clara do Ratos de Porão, mostra que o Sepultura estava bem a frente do tempo em 1993. Chaos A.D é um disco que reflete o mundo de 1993 sob uma ótica negativa e que não faz vista grossa aos problemas que até hoje, mais de 30 anos depois continuam presentes no dia-a-dia de tantas pessoas ao redor do mundo. Responsável por juntar o peso do metal com a fragilidade dos violões, e o embalo e o groove das batucadas e batidas tribais, o Chaos A.D é ponte perfeita entre o thrash/death quase estrangeiro do Arise e da MPB (Música Pesada Brasileira) do Roots. Um disco que é criticamente aclamado, elogiado por pares e responsável por influenciar todo um sub-gênero do metal e alguns dos artistas mais bem-sucedidos do metal atual. Chaos A.D é um retrato atemporal de uma época, uma foto que ainda não amarelou com o passar dos tempos, ou talvez um vinho que com o passar dos anos conseguiu envelhecer e mostrar todas as nuances que talvez tenham passado despercebidas na época do lançamento.

Talvez você não concorde comigo, mas na minha opinião, Chaos A.D é o melhor e mais importante disco da carreira do Sepultura, apenas não é um disco para todos.

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